A nova equipa do Ministério da Cultura, se exceptuarmos o historiador Cornélio Caley, é perigosa. Não tanto pelo nativismo subjacente e pelo nitismo sempre dissimulado, mas mais pela precipitação, pelo voluntarismo e intervencionismo que lhes conduz o pensamento. O seu nativismo nunca foi inocente: legitima passando ao lado da sanção democrática, popular; o seu intervencionismo é que pode ser inocente e isso não o torna menos perigoso.
Falo disto a propósito das primeiras afirmações da nova ministra. Foi para além do seu foro para imiscuir-se no ensino das línguas nacionais, aproveitando um evento próximo. Ainda não arrumou a casa e já está a mandar recados para o ministério ao lado. Não é bom prenúncio, penso eu que não é bom prenúncio, amiga Rosa.
Depois, falar assim, de fora, é fácil. Mas onde estão os professores para ensinar as línguas nacionais? Quantos estão a ser formados por ano e quantos podem ser formados no actual sistema de ensino superior? É preciso começar por espalhar e consolidar cientificamente os cursos de formação de professores de línguas nacionais para que tenhamos professores em número e qualidade suficiente. O que significa termos de esperar, para aulas em todo o país, pelo menos cinco a seis anos.
Nesse período é bom irmos cotejando outras experiências. Por exemplo as de Espanha, onde a obrigatoriedade de aprendizagem das línguas locais tem chocado com gerações que, pensando apenas num sentido prático e voltado para a aldeia global, só querem aprender espanhol (castelhano) e inglês. Muitos falantes possuem o espanhol como primeira língua e são obrigados a estudar línguas locais. Será justo? É capaz de ser, mas a liberdade de escolha, para quem não se legitima ideologicamente, é de certeza um princípio a reter.
Por outro lado, enquanto se espera, é de organizar, com os poucos professores que há, cursos de línguas nacionais para pessoas mais velhas, incluindo estrangeiros, que residem aqui tendo que lidar com falantes que preferencialmente usam as línguas locais, a que chamamos por equívoco nacionais. O facto de eles (técnicos superiores, negociantes, licenciados e funcionários públicos) falarem a língua dominante em cada local (para além da portuguesa) mudará muito o cenário, e vai tornar, indirectamente, o ensino e prática das línguas locais mais natural, mais comum e mais eficaz.
Acho que, antes de entrar no campo de acção do Ministério da Educação, a nova Ministra devia arrumar a sua casa e ir pensando com mais prudência nestes problemas todos, informando-se com os colegas do ministério ao lado. Com esse voluntarismo vai somente provocar choques inúteis que em nada ajudam a causa da defesa e ensino de línguas nacionais, que é também uma defesa e ensino da diversidade.
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