29/02/2008

maria sarmento almondinas

Como uma fita de cetim verde
Em redor do perfil esguio e nobre da muralha
O rio fita o longe
O barco navegável da infância
A madeira, as fábricas e os açudes
A ponte e as pérgolas
As azenhas e a roda que o tempo leva e traz...
A luz que o dia fecha em suas doces margens
E galga em pensamentos
O desejo vivo do mar
Esse secreto sonho de cumprir-se rio
Seiva da terra de quem semeia e lavra
Uma farta colheita de pão e de luar.

27/02/2008

tem gente com fome


Solano Trindade morreu no dia 19 de Fevereiro de 1974 no Rio de Janeiro. Ainda hoje "tem gente com fome".

açude


paulamar

"apetece mergulhar diz o carangueijo, não haverá por aí crocodilos pensa o escorpião? as águas que correm nos lugares mais vastos tocam-nos nas águas que connosco transportamos... as ribeiras da infância... os pântanos atravessados... o sonho do mar no horizonte quando o sol se ergue..."

20/02/2008

Sabu

Por uma casa que não tem portas
Levo a companheira que não se molha. Não me abandona,
Varre o chão todos os dias e guarda a cinza dos meus passos.
Caminhamos com alguém que sai da estrada
Por instantes, desaparece
Debaixo do penacho dos guerreiros vestidos
E volta como os que dormem fora de casa –
Uma pedra só não aguenta –
Resfolegante mas de olhinhos brilhantes
– a marmita.
Caminhamos na felicidade cega dentro da casa
Católica e sem portas que já encontrámos assim, sem olhar muito
Para o risco a dividir a estrada, com a primeira palavra
Gravada para sempre nas nossas veias. Turvamos águas
Para apanhar os peixes, comemos à sombra das largas mangueiras,
Atamos a corda na barriga e prosseguimos como as corças
Parindo longe dos leões, vamos nós mesmos
Pedindo aos nossos ídolos que se abra o caminho,
Que a força do rio não rebente as pontes
E alimente com chuva a terra fresca.
Pedindo pelos filhos com os olhos para cima,
Prosseguindo com os olhos sem filhos por baixo

18/02/2008

host


aterrar no Redondo

Chegado a Évora um salto ao Redondo para comentar «O Herói» e depois tertuliar no monte-restaurante chamado Chá de Lua, ou de Luar. Um monte calvo com a casa em cima, um alpendre vasto a despedir-se do sol todas as tardes. Um excelente chá para abrir as hostilidades, acompanhado por bolo de café com doce de café. Em seguida, intervalo para o Jameson com água lisa e entramos no 'prato angolano', moamba de galinha. Para quem vinha de lá até não era novidade, mas já tinha feito as pazes com um rabo de boi no Café Alentejo e estava pronto para moambar. Então chega o prato e a surpresa: com os mesmo ingredientes uma nova combinação. O molho de um sabor atento e tipicamente alentejano. O pirão, de milho, entre o angolano (compacto) e o brasileiro (a pingar), uma espécie de puré macio, mas apimentado e com alguma erva cujo nome não consegui apaladar. Depois a galinha, com cenoura. Enfim, chamei o dono, homem de extrema elegância e apuro, dei-lhe os parabéns: o senhor acaba de inventar a moamba alentejana! Ele riu-se com toda a sua humildade e agradecimento. O vinho, muito bom para acompanhar o prato, era uma Boa Nova. A seguir a discos de kizomba e Cesária Évora até o coração já salta para fora da mesa e alguém se lembra de homenagear um dos organizadores, um colega da Universidade, grego, assimilado ao Alentejo. Então passámos às danças do Tarkis, danças gregas a lembrar a ilustre família Dáskalos. Após as quais lemos poemas e partimos para Évora, já com alguma chuva que nos agradava particularmente porque de forma geral a chuva afasta a polícia. Convido-vos a ir lá. Ver o arrojado e apropriado edifício do Centro Cultural, partir às 17:30h para o monte Chá de Luar, com uma decoração sui generis e uma simpatia inexcedível sem ser subserviente. Peçam moamba alentejana. Fica a 2 km do Redondo na estrada Redondo-Évora. Não se vão arrepender.

14/02/2008

Luanda, Combatentes, 2006


L de Luanda

Luanda, 14-02-2008

Hoje uma Luanda melhor. A manhã agitada, a gente sente-se perdido e abandonado e, repentinamente, a solução dá-se, tudo salvo em cima da hora e por milagre. Aqui sentimos mais a presença de Deus. À tarde boas conversas. Há uma efervescência cultural a crescer em Luanda. Caminhamos para, pelo menos, algo do nível dos primeiros anos 70: variedade, competição, produtos cada vez melhores (também não era preciso muito mas a procura de rigor nasce mesmo no pântano e ela é que nos leva até ao céu, para além do céu). Boa música. Variedade e pessoas com quem falar de cultura. Na rua e na paisagem a saudade de Benguela com suas ruas poeirentas, sua paisagem doirada e seca, suas pessoas meio agrestes e meio doces, seu trânsito fluído e o passo calmo das senhoras com panos a varrer a sombra das árvores grandes. Mas aqui há variedade, há pessoas com quem falar de assuntos que só interessam aos interessados em cultura. E as mulheres quando se arranjam no capricho do dia (dos namorados) arranjam-se para competir com o primeiro mundo. Às vezes é preciso. É preciso ganhar ao primeiro mundo. Os nativistas estão cada vez mais ridículos, isolados e assanhados. Uns evoluíram, requintaram-se no pensamento e exigiram-se na pesquisa ou na reflexão e na pesquisa. Outros mostram o que são: frustrados pela sua própria ineficiência que procuram levantar a poeira para garantir o poder. Ameaçam, muito ainda, promovem com o poder que têm actos de racismo, ora velado ora aberto. O banto do nativista é o ariano do nazi. Ridículo, veste-se à ocidental, procura restaurantes caros com loiras, fala de livros sem os ler e avisa os amigos dos outros: cuidado, podes-te dar mal. Não te metas com eles. A premiação é limitada pela cor da pele. Mas cada vez menos fazem sentido aqui. A não pela presença indiferente dos indiferentes que procuram forçar aqui uma cidade igual a tantas outras igualmente artificiais. Os extremos são cúmplices. E a boa conversa é que valeu a pena. Desta vez na Chá de Caxinde. Com boa música e músicos coloridos. O jazz angolano, o blues angolano e a Angola das canções antigas, dos solos de guitarra eléctrica a lembrar cordas de nylon, a bateria sacudida com o ritmo nervoso dos batuques ou a melancolia das marimbas-solo. E a voz doce das mulheres a incendiar-nos as noites na baía. E a elegância de alguns amigos a explicar-nos a música, a vegetação que desapareceu da cidade e era a daqui, os olhos a brilhar quando se cruzavam com os dela, aí Benjamim! Aiué beça'ngana...

13/02/2008

Luanda, 13-02-2008

De novo Luanda. Mais lojas nas avenidas centrais e mais bonitas. O resto a mesma cidade horrível ainda. Começa de manhã: o avião que partia às 8h partirá às 13h. Acabou por partir às 17h e com mais uma rota no caminho. O vôo da TAAG suspenso outra vez. Um país suspenso e adiado muitas vezes - apesar disso caminha. Às vezes a passos largos e desordenados. Os passageiros desembarcaram de volta às 20:45h num aeroporto sem condições nenhumas e que há muito esgotou a sua capacidade de alojamento. Já conseguiram prever que vão fazer outro. Aquele já é de uma ironia que exige atenção. Para voar 45 minutos esperamos um dia inteiro. A viagem Benguela - Luanda de carro é mais rápida e mais interessante, mesmo para quem já a fez várias vezes. Oferecem-nos quase no fim uma miniatura de Amarula. As putas nas boates gostam disso - lembro-me de repente e escondo os pensamentos. Um toque de pernas que nos estremece e lá vem a voz doce, sensual: pagas uma Amarula? A aeromoça tem um sorriso bonito e a roupa está bem desenhada, bem engomada, sorridente também. Depois saímos atropelando-nos uns aos outros. As grávidas prudentemente ficam para trás. Em seguida apanhamos as malas aos encontrões num salão sujo, com o tapete rolante abaulado e damos os olhos empoeirados a um trânsito insuportável, ruas cheias de lixo, carros com som alto e jovens bêbados a amontoarem latas de cerveja na terra batida, ruas estragadas sobre estragos, casas pobres e feias de cimento sem tinta, às vezes sem reboco, uma cidade sem gosto de si mesma, ao lado mesmo de planos mirabolantes que mudarão para sempre e sem jeito a baía cujo assassinato embelezam. Engenharias de compensação. No entanto, tenho bons amigos aqui. Pessoas inteligentes e lúcidas que sabem o que se passa. O presidente demitiu o governador sem explicar. Explicam-me porque não explicou. Não podia. Ele é que o nomeou apesar dos avisos sobre incompetência. Talvez. Mas eu li o próprio despacho. E aquele artigo da Tchizé? Ó pá eu gostei. Ó, como assim? E ela não sabe porque é que não temos quadros? Estou mesmo zangado. O senhorio agora ignora o contrato e quer-me por fora. Já fiz obras e tudo, vê só. Quem é que me defende? O presidente também tem as costas largas, isso é verdade. A periferia rebenta porque o centro não resolve. Eu sei lá. Mas é beber um copo na cidade alta. Dizem que ele não pediu a demissão mas o despacho assegura que sim. Dizem até que quando pedem a demissão o Presidente não escreve que pediram. Exonera só. Amigo Paxe, vai-se já deitar? Vão surgindo momentos bons apesar disso. Quem diria - a flor do entulho. Vida partilhada mesmo assim. E uma Luanda falsa para uns estrangeiros e nacionais todos iguais em qualquer parte. Superficial. Distraída propositadamente. Que vai saltar ao primeiro estremeção. Não digam que não sabiam que tudo isso ia mudar... Bom, ainda não mudou nada, só piorou. É verdade. Já nem a selecção ganhou o CAN.
Em Benguela parece que falharam com a passagem da Cidália. Mais uma vez. Falham sempre. Trocam informações, esquecem de escrever os códigos, dizem que se houver problema lá em Luanda resolvem. Uma mediocridade parada endereça-nos para uma aldrabice monumental. A ver vamos. As patas dos aviões arranham-nos as expectativas e seguem cegamente o vôo. Às voltas lá no céu. Às voltas aqui. Parece que não choveu. Partilhas e fragmentos. Amén. Amãi. Há mãe para isto tudo? Puta que pariu...

máscara


12/02/2008

por trás da sombra do som - II


por trás da sombra do som

Por trás da sombra do som[1]

Micro paisagens para marimba sola,

Vaga, suave, arrastada;

Minúsculos animais rastejantes

Passam depressa entre restos de ramos e folhas

E um violino em arrepio rasga o panorama

Com um trovão nocturno e a aguda sensibilidade

Das abelhas no caminho do campo

Separado por fronteiras derruídas de oiros e vermelhos.

Por trás da sombra do som

Teus lábios grossos sensuais

Vibram em quantas cordas

Enquanto olhas instigante

Interrogativa e actuante

Disparando a seta aguda

Que se abre em chamas lancinantes,

Cujo ruído quase inaudível aumenta

A finura das lâminas quando se aproxima

Dos silêncios ondulantes e mergulha.

Depois hás-de sentir um cheiro de fim de batalha

Quando finalmente o concerto se cala

Por trás da sombra do som. E a tua mão de bailarina

Tocará no meu corpo ferido sobre o chão molhado

Para salvar-me ainda. Nessa altura trila

No ar um som de flautas tímidas

Que de brilhos pequeninos

Refaz a pureza e a alegria dos caminhos[2].


[1] Por Trás da Sombra do Som, peça musical de J. Gomelkaya tocada pelo Cadence Chamber Duo.

[2] Micro-Variações para Flauta Solo, peça musical de S. Golubkov tocada por K. Veneltsev.

09/02/2008

excerto

paisagem

Caminhos longos, abertos, pedregosos e argilosos ao mesmo tempo. Caminhos solitários estendidos sobre montes, vales e margens em linhas frontais, que não contornam paisagens ermas, abnegadas, queimadas, expostas ao desabrigo do sol pacientemente, muralhas farinhentas guardando sob o maciço paradoxal os seus tesouros de água. Árvores negras e sem folhas paradas há muitos séculos, expectantes. Para além da morte. O serpentear do asfalto engolido vagarosamente por esta poeira de solidão.
Cada vez chove menos. Como um lagarto perdido na infância, erramos de trilho e mergulhamos nas águas salgadas. Os instantes de alívio azul nos devolvem a morte.

perplexo

Fábula maravilhosa: e no entanto não posso ser aquilo que eu invento.

05/02/2008

J

rótulo

Lavar um cristal de espumas
com chumbo nos ossos gelados

reunião


noite acesa


O azeviche na pupila dos olhos 
Flor agreste mímica negra, vermelha 
E verde pássaro criança 
Estação acordada pela cor das perdizes 
A dançar na saia da rapariga, entre a poeira 
Ondulante ambulante oscilante levitação 
Da caravana em liberdade e com destino certo 
Voz entoada nos estalidos do exílio 
Sobre o deserto, fugindo em flautas para o mar 
Para formar o sol que há-de cair 
Uma vez incendiados os pomares em Yerevan 
Guizos e oiros ainda das armas de Maral 
Abertos agora à alucinação agreste nas areias de Derzoz 
De Ksar-el-Kebir e onde? 
Aqui no sul 
Entre pescarias abandonadas e as mamas gigantes 
Da Chela derramando prata pura para o extenso colo verde 
Para o redondo vermelho do sol e o negro da noite 
Pura como azeviche na pupila acesa dos olhos.

ninho ambulante

vibração

Cordas de música não apertam o sopro das águas



"Lembra-te de esquecer" (Kant)