29/05/2008

a cidade dos maiombolas

Naquele país avança tudo aos solavancos, atropelos, empurrões, mas avança. Ninguém sabe muito bem para onde vai, mas é para a frente de qualquer maneira. Na cidade dos maiombolas, porém, não vai haver eleições. Ou já houve, ninguém sabe ao certo. O lixo acumula-se nas ruas novamente. Os buracos aumentam e já não distingue de novo a rua do passeio. Os esgotos continuam esgotados há muito. A luz falta cada vez mais. A água vem cada vez mais suja. Só a vozinha dos maiombolas de vez em quando se faz ouvir, cada vez mais fina, catuitui com verniz, pois a gordura dos bolsos abafa até a própria verdade.

indigenismo vinícola

Agricultores do estado de São Paulo estão a substituir com sucesso (económico e outros) a uva Itália pela Niágara. Esta manifestação indigenista e endógena (continentalmente endógena) deve-se porém ao facto de a Niagara resistir melhor, produzir mais a menos custos e, por tanto, ser economicamente mais rentável. Não se sabe se o efeito alcoólico levará a sacrifícios humanos quando o vinho for sorvido em cascata.

pisa

A torre de Pisa deixou de se inclinar e fixou-se na inclinação que tinha em 1700. É possível que haja mais tremores de terra e 'blogs' alucinogéneos em consequência disso.

Nouvel ganha La Défense

Dos projectos cujas fotos importei para aqui o vencedor foi o do francês Nouvel. A obra deve ficar pronta para o Natal de 2013. O autor, para além do último prémio Pritzker, foi o criador da Torre Agbar em Barcelona. Veja-se mais em: http://www.elpais.com/cultura/ (daí saltar para o artigo sobre Nouvel); na língua original em (por ex.): http://www.lefigaro.fr/culture/2008/05/28/03004-20080528ARTFIG00374--la-defense-la-tour-signal-sera-concue-par-jean-nouvel-.php

26/05/2008

La Defense 4


Projecto do arquitecto Libeskind (USA) para torre em La Défense

La Defense 4

La Defense 3


Projecto de Nouvel, O Francês, para La Défense (o arquitecto foi o Prémio Pritzker 2008). É sem dúvida o mais original e o mais forte.

La Defense 2


Projecto do arquitecto francês Ferrier para torre em La Defense

La Defense 1


Projecto de torre para La Defense do arquitecto francês Wilmotte

marte pela sonda phoenix



- a cor é reconstituição feita pela equipa da NASA a partir de fotos a preto e branco

credo

Acredito na altíssima origem dos reis.

Acredito na encarnação dos augúrios.

E no voo e no pasto dos auspícios.

Acredito no pressentimento dos cães

E nas pessoas cozidas depois de mortas.

Acredito na ritualização das leis.

Acredito na sagração da nobreza.

Acredito nos homens sentados num altar.

desoras

Por fim, pode-se dizer,

O dia foi curto

Como de costume.

Tudo passou num ápice

E o passo não foi fácil.

Por fim quando vimos,

Banzados nas desoras,

Avançar ao longe uma luz,

A tarde era uma tocha

A sufocar entre os declives.

Com sua tintura de sombras percebemos,

A desoras, que o tempo

Deixava de ser nosso

Nesse preciso momento.

Dino Campani, 1915



“Inconscientemente eu atirei os olhos à torre bárbara que domina a avenida longuíssima dos plátanos. Sobre o silêncio tornado intenso ela revivia o seu mito longínquo e selvagem: enquanto por visões distantes, por sensações obscuras e violentas um outro mito, ainda ele místico e selvagem, me acorria à mente de rompante. Lá em baixo tinham trazido as longas vestes molemente para o esplendor vago da porta os passeantes, os antigos; o campo entorpecia agora nas redes de canais: raparigas de vestidos ágeis, com perfis de medalha, desapareciam de repente sobre os carreiros atrás das curvas verdes. Um toque de campainha argentino e doce de distância: a Noite: na igrejinha solitária, à sombra das modestas naves, eu estreitava-A, pelas carnes róseas e pelos acesos olhos fugitivos: anos e anos e anos fundiam-se na doçura triunfal da recordação”.

Dino Campani, Canti orficci, 1915, fragmento [2] («La Notte»)

25/05/2008

comunicação

"...cantam versos de amor e tangem uns alaúdes formados em estranha figura [.../...] De mais (cousa admirável!) mediante este instrumento exprimem os conceitos de sua alma e fazem-se entender tão claramente, que quase todas as cousas que com a língua se podem manifestar, eles com a mão a declaram, dedilhando o instrumento" (Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas, por Duarte Lopez & Filippo Pigaffetta, trad. de Rosa Capeans, Lisboa, AGU, 1951, p. 126). Segundo George Steiner a comunicação é um milagre.

24/05/2008

surrealismo à venda

A Sotheby's pôs à venda, no dia 21 de Maio, o único manuscrito completo (conhecido) do manifesto do surrealismo escrito por Breton em 1924. Entre 300 a 500 mil euros.

rimbaud

Texto esquecido de Rimbau sobre Bismarck, publicado aos 16 anos em O Progresso das Ardenas, Charleville, a 25-11-1870. Consultar em: http://www.lefigaro.fr/livres/2008/05/22/03005-20080522ARTFIG00405-le-reve-de-bismarck-fantaisie-.php

22/05/2008

james graham, marquês de montrose (1612-1650)

(ao saber da sua sentença de morte em Edinburgh) Let them bestow on ev'ry airth a limb; Open all my veins, that I may swim To Thee, my Saviour, in that crimson lake; Then place my parboil'd head upon a stake, Scatter my ashes, throw them in the air: Lord (since Thou know'st where all these atoms are) I'm hopeful once Thou'lt recollect my dust, And confident thou'lt raise me with the just.


Notes
1] From 1644 Graham commanded the Royalist forces in Scotland during the Civil War. After several brilliant successes, he was defeated at Philiphaugh in September, 1645 and fled to Norway. In 1650 he returned to Scotland but was unable to raise followers, and was finally betrayed to the Parliament and executed in Edinburgh. airth: quarter of the compass. (consultar: http://rpo.library.utoronto.ca/poem/880.html e http://www.british-civil-wars.co.uk/biog/montrose.htm)

provérbio ********

"o maior trunfo é a técnica de irritação gota a gota"

20/05/2008

quintal de alda lara

O talhão inferior esquerdo (dos cartazes até quase ao prédio) era onde ficava a casa em que nasceu e cresceu Alda Lara, segundo se diz na cidade. A árvore era do quintal dela.

14/05/2008

despedida

aves truzes ver desfogem para o mar para longe do imbondeiro de asfalto o avião confia na cega força do medo motores e músculos conjugando a ruptura - no entanto fugaz, no entanto fatal porque depois do pânico fica em geral vazado o campo das batalhas Adeus, pássaros verdes. Como destroços nas ondas gigantes Freneticamente nos agitaremos Até cairmos, fragmentos inermes, Sobre o mesmo inútil chão. E só então a morte se lembrará de nós.