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A mostrar mensagens de setembro, 2009
jorge mendes macedo
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O dia começou estranho, viciado em contratempos. Cerca das 12h me ligam de Lisboa a dizer que o Inácio Rebelo de Andrade morrera na semana passada. Huambino, co-fundador e responsável da col. Bailundo com Ernesto Lara filho, sugeriam-me até que escrevesse uma nota fúnebre. Investiguei e talvez não tenha sido ele quem morreu. Quando me convencia já disto, ligam-me a dar a notícia da morte do Jorge Macedo (por acidente cardio-vascular), que logo vejo na TPA. Foi outro choque. Por diferença de ideias (discordávamos em quase tudo) algumas vezes nos zangámos, mas éramos amigos e fomos companheiros na direção da Casa de Angola em Lisboa, onde trabalhei apoiando-o no sector cultural, sob o comando geral do mais velho Edmundo Rocha. Tertulizámos muito com o Tomás Jorge, que também faleceu há pouco. Também o acompanhei quando em Portugal andava mal e sozinho, não tendo mais amparo que o Dr. Edmundo e o Tomás Jorge, acusado de muita coisa injustamente. Mais tarde em Luanda nos revíamos, com o ...
arménio vieira no inferno
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Acabada a leitura da ficção narrativa de Arménio Vieira intitulada No inferno . Uma leitura estimulante, atual e despretensiosa. Com fina ironia, o autor compõe a alegoria impiedosa do escritor de hoje – e esses dois traços (alegoria, ironia), voltados para o escritor contemporâneo, vinham já de O eleito do sol . Durante a maior parte deste livro ele imagina um homem fechado numa boa residência, com tudo à mão, só não podendo sair enquanto não escrever um romance excelente. Como hoje os escritores estão fechados nos seus escritórios, com toda a literatura em rede a um toque do teclado, assim aquele, fiel ao compromisso com o editor. Hoje o escritor é aquele que, através do computador, tem acesso (no mínimo) ao conjunto de todos autores, ou obras, canónicos e globalizados. É como se, de repente, a sua memória visualizasse toda a literatura mais ou menos conhecida no mundo (essa é das imagens do livro). Uma das ironias está no facto de o protagonista não conseguir ...
fernando costa andrade
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Morreu o poeta e artista plástico nacionalista (angolano) Fernando Costa Andrade (já agora, é mesmo só Fernando Costa Andrade e não Francisco Fernando como dizem quase todos na esteira de Manuel Ferreira; o próprio autor chamava constantemente a atenção para isso). Costa Andrade usou muitos pseudónimos (por exemplo Africano Paiva), entre os quais se destaca o de Ndunduma we Lépi (nome de guerra; Ndunduma é nome de um dos últimos e mais obstinados reis resistentes à ocupação colonial no princípio do século XX). Era filho de pai português e mãe angolana. Segundo a nota do bureau político do MPLA, faleceu na 6.ª F.ª passada (dia 18, portanto). Homem coerente com os seus princípios, combateu pela independência literária e política do país, incluindo de armas na mão. Autor de um canto armado, teve no entanto um conhecimento razoável do concretismo paulistano, dos tempos em que esteve por lá, exilado e ativo, em Sampa, São Paulo, Brasil (aí publicou, recordo, o segundo livro: Tempo ango...
adelino torres teses
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O sítio de Adelino Torres na rede continua a ser uma referência para estudiosos e angolanos, em particular no capítulo «Teses». Recentemente aí 'caíram' mais dois trabalhos importantes: o de Filipe Zau, de doutoramento, sobre a Educação em Angola e a de Rosário Rosinha sobre a China em África, tomando como exemplos Angola e Moçambique. É de passar por lá outra vez.
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Não creio Que me façam feliz: Sob o receio De chumbo no céu próximo Alguém executou as diretrizes De um plano óbvio. Um amigo acena: ao longe, brandamente... Estar aqui, não por ser triste, Mas por, agora, Sermos o fogo que nos devora De pura rebeldia a sequiosa voz. Dois escravos libertos Para acordar o sono atormentado Como um porto, a s o a v e Mentira.
carlos ferreira quase exílio
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O INIC (Instituto Nacional das Indústrias Culturais) publicou em 2003 a obra homónima de Carlos Ferreira com desenho de José Rodrigues na capa. Carlos Ferreira é um caso particular (como quase todos) da literatura angolana. Faz parte, com Filipe Zau, daqueles escritores angolanos que também com sucesso compõem letras para música e estiveram sempre muito ligados à música – de onde lhes virá o sentido de ritmo e de harmonia mais apurado. Fez a sua caminhada no âmbito das Brigadas Jovens de Literatura convictamente, pela fidelidade aos ideais da Revolução que professou. Daí lhe vem uma profunda amargura, a dos que se desiludiram ao verem que o rumo tomado se afastava cada vez mais da utopia. O que pulsa em quase todos os poemas do livro é a angústia de quem acreditou, viu tudo e quase todos falharem, e se retirou para Portugal (ou qualquer outro país) amargando ainda uma enorme solidão, um quase exílio. Da vivência intensa dessa desilusão coletiva e com o coletivo lhe vem um tom pessoal, ...
muxima
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Para os que não sabem, Nossa Senhora da Muxima é uma devoção angolana que leva todos os anos muitos peregrinos a uma vila e Igreja alta sobre o rio Kwanza, no município da Kissama, geralmente em Setembro (este ano foi em Agosto, não sei porquê). O templo é dedicado a Nossa Senhora da Conceição, de onde a palavra muxima fazer todo o sentido, uma vez que indica a sede dos afetos e sentimentos, vg. coração. A peregrinação à Muxima aumenta de número e de significado ano após ano. Começou por ser uma peregrinação espontânea e popular e continua sendo essencialmente isso. Ela tem um significado cultural e identitário forte, tornando-se mais um pilar da construção de consensos nacionais. São consensos que, no caso da religião, duram muitos anos, décadas, eventualmente séculos (e esta devoção começou mesmo há séculos, porque António de Oliveira Cadornega já fala dela no século XVII - recorde-se que a construção da Igreja data dos anos 40 desse século). A criação destes consensos define uma ide...
Intelectualidade e Mentira
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Não é intelectual quem quer, é preciso também um conjunto de capacidades cognitivas e morais que, agregadas, fazem de nós intelectuais. Os que põem à frente de tudo o desejo de ser intelectuais, porque parece bem, porque lhes dá autoridade, prestígio, etc., notam-se logo porque forçam as coisas e, o mais grave, desde o início forçam a verdade a ser o que não é, melhor, a ser o que lhes der jeito a cada momento. Entram para as academias, universidades, institutos e começam por introduzir a mentira sob as mais diversas formas. Exponho algumas que pessoalmente pude comprovar, algumas vias usadas nas academias portuguesas para mentir (e falo das portuguesas porque as conheci melhor, trabalhando nelas mais de 20 anos): 1) escrever cartas anónimas caluniando colegas; 2) escrever cartas secretas intrigando colegas; 3) impedir colegas de falar em mesas-redondas ou debates pós-comunicação sob pretextos vários mas apenas por se prever que nos venham desmentir; 4) usar sofismas para dizer que a v...
batchi o que a áfrica não disse
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Uma surpresa interessante o livro de estreia de Batchi, "pseudónimo literário de Basílio Tchindombe" como se diz na badana. O livro recebeu o prémio literário António Jacinto em 2008 e foi publicado pelo INALD com apoio do BPC. O autor nasceu no Huambo em 1979, mas vive desde um ano e meio no Lubango, sendo professor em Caconda. O título da obra é sugestivo: O que a África não disse... Em primeiro lugar estamos perante um narrador instigante, cuja obra deixa o leitor interessado do início ao fim. Para além disso vê-se que o autor domina bem, quer os aspetos históricos e antropológicos, quer as culturas em jogo (banto angolana e cristã europeia), quer as temáticas teológicas e filosóficas em que naturalmente envolve as personagens. Domina, ainda, a arte dos diálogos, que é a mais difícil numa narrativa. Efetivamente os diálogos nos parecem naturais, apesar do português antiquado (apropriado ao tempo da narração) e de umas poucas falhas nesse mesmo português antigo. Há raros m...
mirta benavente
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Uma rara surpresa a arte de Mirta Benavente. Vi que se juntou a este 'blog' como 'seguidor' e fui à procura do 'blog' dela. Vão lá , vão gostar seguramente. Tem o nome da autora. Inclui pedaços de críticas à sua obra, obras várias assinadas por si, notícias relativas. É um 'blog' de autor, sem dúvida, mas muito bem gerido e com a reprodução de pinturas surpreendentes, perfeitas, ao mesmo tempo íntimas ou intimistas e exatas (exatas na sugestão: sabem exatamente o que sugerem e comseguem-no em cheio).