Publicação em destaque

Azul quase frio

( Algumas nuvens )

31/12/2020

Teoria da receção

De forma geral o reflexo não espelha, muito menos quando a gente pensa. A onda não faz apenas uma simetria da areia. Se repararmos, ela tem personalidade própria. Assim também a arte )nela incluída a moda( não é um reflexo da sociedade, nem o pensamento é um reflexo da realidade. Isso, hoje, percebe-se que foram teorias ingénuas confundindo não ser alheio com estar condicionado a




30/12/2020

Coluna vertical

Simetria não é um número nem um formato, é um tipo especial de transformação - uma maneira de mover um objeto. Se o objeto parecer o mesmo depois de movido, a transformação aí presente é uma simetria. Por exemplo, um quadrado continua um quadrado se for rotado em um ângulo reto.

(Ian Stewart - Uma história da simetria)




29/12/2020

Verde beleza no chão

Quando a idade apagar toda a atual grandeza,

Tu ficarás, em meio às dores dos demais,

Amiga, a repetir o dístico imortal:

"A beleza é a verdade, a verdade a beleza"

- É tudo o que há para saber [...]

John Keats, Ode sobre uma urna grega

 



28/12/2020

A caminho


Nenhum de nós pode dizer por que a beleza é verdade ou por que verdade é beleza. Só conseguimos vislumbrar a complexidade infinita dessa relação.

(Ian Stewart - Uma história da simetria)



Onda vertical


 : por ser menos densa que água em estado líquido, a espuma tende a flutuar.

As ondas, entretanto, parece que nasceram como nós, ou seja, sem princípios inatos.




27/12/2020

26/12/2020

Oferenda:


Deixe a maçã na beira do mar por uma noite de cacimbo. De manhã, não morda se quer ver-se livre de paixões; se, porém, quiser atrair outras pessoas com sensualidade, morda a maçã e plante-a com uma rosa no seu horizonte de espera


 

24/12/2020

Discreta,

não propriamente posta à parte, separada, mas a subtileza de quem chega quase sem se fazer notar, com a humildade dos que não são esperados nem desesperados, apenas nem se pena n'isso' - e no entanto era luz




21/12/2020

A sombra- perpendicular


De Lisboa não me recordo, fui lá para ser dado à luz e batizado logo em seguida. Era um sonho antigo do meu pai. 



 

20/12/2020

Quase no começo


Ali também contemplávamos, nos breves momentos de ócio, os pássaros brancos comendo bichinhos no lombo das areias molhadas. 
Era então que entoávamos o canto.
O pássaro branco
foi beber água
foi beber água.





 

Nesga de luz


Palavras-chave
em repouso


 

18/12/2020

Nublado luminoso


Não foste (repetida, quanto,

A expressão – embora…). O sol

)ido(

Ficou na praia, então

Olhando-nos de longe. 




15/12/2020

Junto à praia


mar e nuvens em simetria conversavam, cada um na sua língua... A areia apenas assistia.



 

13/12/2020

Este era o contexto


O Fórum romano tinha um formato retangular. Alguém que viesse pelo lado do Coliseu deparava, ligeiramente à esquerda, com o templo circular de Héstia (Vesta em latim), em cujas traseiras estavam as virgens sagradas vestidas de branco em torno dos espelhos de água dançando pela manhã. 
Nos dias de Vestália vinham as mulheres descalças e com os cabelos soltos e as virgens as olhavam complacentes. Depositavam no recinto sagrado as iguarias, como fazem no Brasil a Iemanjá. Traziam salsa e farinha muito branca, fina, bem moída, que as vestais torravam e salgavam, devolvendo-a para que as mulheres descalças e de cabelos soltos as levassem de volta aos Lares. O mesmo fogo, por elas guardado em casa para nunca se apagar, ardia no templo enquanto o Império durasse.



 

10/12/2020

Estava sem voz


Assim como as vozes, também os silêncios saem uns dos outros. Ontem, quando me visitaste, eu já não tinha voz. 



 

09/12/2020

Profecia


Tira os sapatos dos pés, porque a terra em que pisas é sagrada

(Bíblia, Êxodo)


 


01/12/2020

Espessura de nuvem

O homem é um ser de uma considerável espessura, é óbvio.

... o  próprio  movimento  e  a estrutura  do  discurso poético

devem  sugerir tal  opacidade ontológica

 

(João Vário, Cabo Verde)





30/11/2020

Irrepetível


Como é fácil de verificar, o poema retorna sempre à descrição da fotografia, que fixa o irrepetível e por isso guia, segura, a sugestão lírica. 


 

29/11/2020

Poema semiótico


]...[ no es el lenguaje el que precede al texto, sino el texto el que precede al lenguaje.

(I. Lotman - La semiosfera)


 

26/11/2020

Notícia meteórica

 

"um meteoro explodiu na fronteira do Uruguai com o Rio Grande do Sul. O bólido, nome dado a um meteoro que explode na atmoesfera, foi registrado pelo Observatório Espacial Heller & Jung, que fica a cerca de 426km da explosão, em Taquara."




25/11/2020

Lejos


Encuentro en tus sueños ajados de niño

no sé qué lejana tristeza dormida.

)Yolanda Westphalen(




Esquecidos e ausentes - o senhor Paes de Sousa


Provavelmente vocês não conheceram o Paes de Sousa. Sim, o António Paes de Sousa, esse mesmo, o falecido. Nunca o vi também, mas ainda me falaram muito dessa personagem )os velhos(. 

Veio para Benguela ninguém sabe muito bem de onde, jovem, bem parecido, um tanto vaidoso )defeito que não diminuiu com a vida na cidade, pelo contrário(, estatura média, magro e tez um bocadinho morena. Tinha uma curiosa característica: vestia sempre camisa de manga comprida. Quando nos falava, cerimonioso como os vincos da camisa, olhava perscrutando, como se estivesse a testar as perspetivas. Inclinava por vezes a cabeça ligeiramente para um lado, depois para outro, enquanto fixava os nossos olhos, como se quisesse experimentar uma entrada de luz pelos cantos e vislumbrar o que estava lá dentro. Mas fazia aquilo sorrindo, falando com voz calma, com simpatia, com segurança ao mesmo tempo. As senhoras gostavam muito dele e faziam com que os maridos pagassem bem pelos retratos, excelentes e luminosos, dos seus rostos levemente retocados no laboratório do sr. Paes.

Dizia que tinha uma pele frágil e precisava protegê-la do sol, razão pela qual usava sempre calça )mesmo junto às ondas( e as tais mangas compridas, com botões que pareciam de marfim. Por vezes protegia-se debaixo da sombrinha de alguma respeitável dama e caminhavam juntos na rua da praia morena, ele passava a segurar a sombrinha e ela lhe dava, discretamente, o braço. Mas era o sol que animava os seus dias. 

Quando veio trazia já uma máquina fotográfica e muitos "apetrechos". Assegurava ser a última novidade de Londres )não sei porque falava em Londres, terra tão cinzenta e nublada(. Instalou-se, também, como fotógrafo, via-se logo, né? Tinha uma pequena mas luminosa loja na rua do Mercado, bem central, portanto. Ao contrário das nossas paredes coloridas, a loja do Paes de Sousa era toda branca, só branca, por fora e por dentro e tinha uma janela grande, alta, sempre aberta. Rapidamente se tornou dos mais requisitados retratistas para a vida social da cidade, que os tinha escassos - mas as rivalidades ela as mantinha sempre de forma cordata, como, de resto, a 'outra parte'.

Apesar dos retratos de sucesso, que um pequeno acrescento de brilho aviva ainda mais, onde gostava mesmo de fotografar era para aqueles lados hoje do parque de campismo, quem vai para os Navegantes. O pouco dinheiro que arrecadava )a vaidade é cara( investiu em compra de terrenos ali, de um e de outro lado do rio seco e ninguém nunca percebia porquê. Não fez nada lá, só uma barraquinha de pau a pique, imaginem, um quase dandy daqueles, cultor dos fatos de linho branco e dos chapéus brancos e de sapatos claros, contentava-se com uma cabana nos seus terrenos, uma cubata, mesmo. O chão é que estava impecavelmente limpo, varrido, sempre que ele ia para lá. Saía para tirar os retratos ao mar e ao horizonte, regressava depois à cabana e ficava olhando as fotografias que tinha tirado nos dias anteriores, alternando com um relance de olhos para o mar.  Aos poucos foi detalhando as ínfimas e grandes variações das ondas, em brilhos formas e cores )que pena, dizia, de si para consigo, pena as cores ainda não serem tão fiéis nas fotografias(. Depois voltava à praia e tirava mais retratos aos perfis das ondas e também aos das nuvens, à linha fiel do horizonte que, no quarto escuro da loja, fechado por uma cortina preta por trás do balcão, sublinhava subtilmente reforçando o traço de luz que a distinguia. 

De quando em quando, a jovem mulher que lhe varria o chão trazia-lhe uma fruta fresca, limpíssima e enchia-lhe a moringa de água. Não sei onde ia buscá-la naquela terra de pele escamada pela secura. Sempre lhe pagava sem troco, um gesto de mão indicando que ela não devia retrucar, apenas aceitar o que lhe dava a mais. Ela ria, contente, olhava-o com uma rara ternura brincalhona e dizia: "meu branco!" )não, isto não significava ser ele branco, assim de pele tão clara quanto a minha, indiano talvez(. Depois saía saltitando e cantando como se fosse uma criança, enquanto ele voltava a olhar as fotos alternando com as miradas para o horizonte. 

Um dia morreu. Como toda a gente. Pedira à jovem mulher uma esteira e deixara-a na cabana. Na manhã em que regressou tirou uma última foto, voltando a sentar-se lá dentro. Estranhamente, vinha sem as fotos anteriores. Apenas olhou, lá de dentro, o horizonte uma última vez. É possível que tenha murmurado qualquer coisa enquanto um ligeiro traço de satisfação lhe animava subtilmente o rosto. Uma brisa muito suave arejava a sombra. Impecavelmente vestido, deitou-se na esteira limpa e adormeceu virado para o Ocidente. 

Corria o ano de 1900.



 

24/11/2020

Sediado em Benguela - ausentes e esquecidos


José Marques Ferreirinha era um negociante sediado em Benguela, que lá morreu solteiro no ano de 1898. A nostalgia de uma origem desconhecida parece tê-lo conduzido à busca pela imagem. Quando faleceu, deixou vários “objectos de photographias”, a máquina fotográfica, algumas “oleographias” que lhe serviam de comparação, junto com “livros”. 

Não sabemos qual a sua origem. Provavelmente nasceu do ventre materno.



 

23/11/2020

Esquecidos e ausentes


Pedro Martins da Paiva morreu na cidade de Benguela em 1873. Era natural da cidade, onde fez a vida profissional até chegar a Capitão de Porto - posto com que partiu para o tal oceano...

Deixou um espólio precioso: muitos livros, uma estante para música, um bandolim, duas flautas, uma rebeca - segundo o inventário de órfãos. E deixou-nos também uma máquina para tirar retratos. 

Olhava constantemente o mar:



 

22/11/2020

20/11/2020

Registo geracional


...houve um aumento, excedendo ligeiramente a margem de erro. As quedas ficaram gravadas na areia...



 

19/11/2020

Irradiação


 - que o celestial é diStante e, no entanto, essa claridade assiste ao Deus e ao Dia




18/11/2020

Esplendor entre vassalos,


também entre os que o servem se obnubila, que para tal o servem por contraste os leais conselheiros:




 

13/11/2020

Pontilhado

 

A principal função social e pessoal da arte: levar-nos a perceber coisas que estavam perante nós e nós não víamos, ou não víamos ligadas. É também nessa medida que a arte se torna misticamente funcional, porque o místico persegue a ligação amorosa com algo ou alguém que nós não vemos ou não vemos bem, de que andávamos desligados. 




Sobreposição


acolhe o inquieto meu vagar.

Com a fugida luz

(Ungaretti)




 


10/11/2020

Começo e fim

 

, nem sabia já se era o amanhecer ou o entardecer...



Um pouco mais cedo - prefácio académico


"Intertextualização fortíssima mas bem integrada, assimilada mesmo; indicia leituras de vastíssimo arco: do classicismo grego e latino, do renascimento, do romantismo, do barroco, do modernismo – tudo numa síntese só"