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Átomos estéticos são também cognitivos

  “Quando vemos algo além de nossas expectativas, pedaços locais de tecido cerebral geram pequenos ‘átomos’ de afeto positivo. A combinação ...

28/10/2021

15/10/2021

As nuvens corriam


com pressa para a praia, sem fúria. Entretanto, a ameaça de chuva estava suspensa. Não era alívio, o que sentíamos. Era alegria.



 

14/10/2021

11/10/2021

Na sombra doce da varanda

pousava sobre a mesa a rainha da Suécia, com sua pose sorridente, leve, educada e natural. Há pessoas em que o respeito pelos outros é tão bem incorporado que não se nota nelas a diferença entre a regra e o que não prevemos. Ela conhecia os nomes dos pássaros e a beleza das asas em pleno voo. Proferia palavras sibilinas e coloridas que tiniam por miríades nos meus ouvidos acordando sinos antigos novamente vivos. De soslaio vi as dunas próximas. Um simples inseto com mil olhos espreitava a sobrevivência.


 

10/10/2021

09/10/2021

Como Hölderlin,

como Nietzche, e em constante referência a eles, Heidegger se vê literalmente obcecado por intimações de um retorno revolucionário à fonte, de um ciclo de regresso ao ponto de partida (comparável ao da poesia e da teosofia apocalíptica de Yeats).



(George Steiner, Heidegger)


08/10/2021

César disse:


"vim, vi e venci". 
Nós temos a tendência para só ler o último verbo,
com a mesma flexão pessoal.


 

07/10/2021

Eu queria contar-vos uma estória,

 que mostrasse como são complexas as nossas cidades ao anoitecer e porque está acesa cada luz e apagado cada lar. Eu queria contar-vos uma estória mas, quando fui à varanda, extasiado, fiz apenas uma fotografia.



05/10/2021

O modo humano


passa pela nossa tendência para estabelecer e verificar padrões que facilitem a perceção e o sentido ou significado contextuais ou mais profundos. Os padrões poupam, não só tempo e energia, também espaço na memória. Considerar um padrão definitivo pode ser tão prejudicial quanto considerar a padronização dispensável.  É claro que, se eu busco a prontidão para o êxtase, preciso de me descondicionar e descondicionar-me dos padrões. É claro também que, se vou comunicar-me com vocês, preciso levar em conta os padrões comuns, ou pelo menos uma parte deles, se não eu falo e vocês não me compreendem. 

O processo mental que nos leva à criação ou perceção de padrões é, não só verificado, por um método parecido com o hipotético-dedutivo, mas apurado. Há como que padrões de padrões. Ou, se quisermos, padrões fundamentais, aos quais correspondem figuras geométricas (por assim dizer): círculos, simetrias, cruzes, triângulos. Esta figura assenta sobre simetrias e as simetrias interseccionam-se, aqui, pelas formas retilíneas, com a cruz, mas essas formas fazem a cruz integrando formas redondas, circulares e o próprio círculo organiza a grande simetria, que foca imediatamente a nossa atenção. Lá no fundo e no centro da simetria e do edifício aparecem de novo as linhas cruzadas, aí sem qualquer presença de formas redondas. Acho que faz sentido para um palácio da Justiça. 




03/10/2021

O oráculo é uma árvore solitária

Ó Fortuna,
como a lua, 
sempre mutável,
sempre crescente
ou minguante


(Carmina Burana - orquestrados por Carl Orff em 1936)

 

30/09/2021

As aves migratórias

aquáticas
nem sabiam 
que estavam protegidas
desde setenta e cinco
em Ramsar
- convenção sedentária


 

29/09/2021

Disso tenho certeza,

 por mais que rebentassem pedras e fogo sobre os telhados de Telel Hamã, nada perturbaria a memória do lar onde, pela primeira vez, eu vi



28/09/2021

A ausência,

o deserto criado na incomunicabilidade por ausência ou por resistência sem interação, isso nos tira verdadeiramente do processo comunicativo? Não, estamos lá mesmo que por ausência ou na qualidade de muro.


 

25/09/2021

Retrato de sombra e espuma


Não, eu não olhei
para trás, Orfeu

eu, um corpo
serpenteando
sobre a roseira

uma ave migratória
tocada pelo fogo



(Daniela Delias, «Roseira», de labirintos e espirais: sete poetas de rio grande. 1ª ed.. São Paulo: Patuá, 2021)

 

24/09/2021

Palavra


à espera de um nome
a coisa de mãos imensas
e olhos extraordinários
desprende-se dos ossos
e espalha pela garganta
a sede de que é feita




 (Daniela Delias, poema «Palavra», primeira estrofe) 

23/09/2021

22/09/2021

Preocupação científica


Les temps de crise invitent 
plus que jamais 
à renoncer au sens commun,
à choisir l’épreuve des faits,
l’expérimentation, la vérification




 )P. Descamps, Manières de voir, Le monde diplomatique, Numéro 179. Bimestriel. Octobre - novembre 2021, editorial(

20/09/2021

Duas ou três flores


se preferes, e com anáfora: 
2 ou 3 mortes
2 ou 3 brancas
2 ou 3 promessas
2 ou 3 lembranças
(e o mar lavando as folhas
do tempo, longo e gris,
na calva monarquia 
do sul)



 

19/09/2021

Espraia


de que onda sai tua voz
que ainda vem úmida e trêmula?




(Cecília Meireles, Canção da Vizinha. Não soaria melhor ela escrever "trêmula e úmida"?)

 

18/09/2021

Os Cossacos de Krasnoyark - ode para Igor Moiseyev


Naquele tempo, gostávamos de juntar as crianças na casa de Krasnoyarsk, nas margens do majestoso rio Yenissei, mesmo no Inverno, quando as pontes gelavam. As meninas da biblioteca traziam sorridentes livrinhos coloridos para ver ao fogo da lareira, pelas manhãs frias, ou no jardim, quando o calor já derreteu as neves e o sol abria os brilhos das ervas ao resplendor. Algumas vinham das montanhas vizinhas, do parque estadual de Stolby e os olhinhos vivos cintilavam por verem a cidade.

Pela tarde, as raparigas sentavam-se a cruzar os fios dos novelos e a conversar, amenas, enquanto as mais novas liam contos de fadas e tocavam inutilmente nos desenhos das pessoas como se fossem de carne e osso. Uma noite as levámos ao ballet e, por todo o tempo, não disseram uma única palavra, maravilhadas. 

Os meninos afastavam-se um pouco para ver os cavalos de Tatysh, ainda resfolegando as fúrias de kirguizes e kazaques. Ao fim do dia gostavam de assistir às danças de Godenko e de ver os mais velhos com bigodes esticados a fumar tabaco escuro no canto dos lábios, enquanto acompanhavam com palmas, excitados, as danças coloridas e rápidas dos pares a quererem também saltar o khorovod. Os olhinhos dos meninos guardavam tudo fascinados. Afinal, iriam ser futuros cossacos. 





17/09/2021

16/09/2021

13/09/2021

Fuga para o azul


entre os lenhos de água


O meu rosto de terra

ficará aqui mesmo

no mar ou no horizonte.


Ficará defronte

à casa onde morei.

Mas o meu rosto azul,

O meu rosto de viagem,

esse, irá pra onde irei.

(Cassiano Ricardo, começo do poema Fuga em Azul Menor)
 

12/09/2021

Transportes lentos

 

E o dia se acaba em mortes

E a morte em instantes

E já não se ouve aqui

O que antes se escutava: