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Átomos estéticos são também cognitivos
“Quando vemos algo além de nossas expectativas, pedaços locais de tecido cerebral geram pequenos ‘átomos’ de afeto positivo. A combinação ...
12/07/2026
Alves Redol, Gaibéus
10/07/2026
09/07/2026
08/07/2026
07/07/2026
06/07/2026
05/07/2026
04/07/2026
03/07/2026
Mas o que é que elas sabiam?
02/07/2026
01/07/2026
Numa rua da cidade
vejo a minha cabeça: o lixo da manhã (de preferência arrumado ao canto esquerdo, à espera de limpeza noturna), as moradas (o tanto que sobre elas há para dizer!), a nobreza (a dos que aprendem a conhecer e, nessa medida, são filhos de algo, ou seja, do que neles se acrescenta por aprenderem a conhecer), a diplomacia (de preferência cultural), o sagrado (entre as árvores ao fundo e a biblioteca diplomática da nobreza), as interações pessoais (em esplanada no Verão), uma rua ensolarada ao meio para facilitar o mapa, o trânsito que foi mais o que vai passar a seguir (e que nos convém deixar em aberto, imprevisível), um polícia pelo menos (não convém fotografar o nosso polícia mental), a constante reformulação, renovação, algumas descontinuidades, os andaimes necessários às reedificações e múltiplas saídas possíveis, incluindo as que não consegui meter em perspetiva. Uma rua longa a descer para outra subida, mais lenta e gradual.
Esta é a rua de Santos-o-Velho, pouco acima da igreja, vista do passeio frente à embaixada de França, antigo palácio do Marquês de Abrantes (o primeiro foi agraciado com esse título em 1708, por D. João V, que transformava o ouro do Brasil em mármores magnificentes encomendados a artistas de excelência e edifícios sumptuosos, grandes, majestosos, desenhados por arquitetos de exceção). Uma rua onde moravam muitas pessoas pobres, em casas pequeninas, onde por vezes se ouvia o fado (pouco acima, na rua Vicente Borga, nasceria com o século XIX a famosa Severa, na taberna da mãe). O terremoto, máquina de limpeza bruta e radical, varreu a quinta dos marqueses de Abrantes, mas o palácio não. Frente ao palácio abriram-se ruas e subiram por onde antes havia muitas árvores e corriam águas pela chuva. Os operários, os migrantes internos que vinham para a beira-rio, varinas e pescadores, instalaram-se ali, junto com alguns homens ricos e, ou, nobres, esses em casas um pouco mais espaçosas. As monjas também. Os santos e os anjos, as mulheres de virtude e com ela discreta, mulheres belas tisnadas pelo Tejo, alguns e algumas pessoas de pele mais escura ainda fugindo ao poço dos negros.
De certo modo, a nossa cabeça é um fado. Mixuruca, sim, enquanto prepara o grito. Fado-argamassa improvisado por vozes múltiplas na taverna onde são todos muito valentes e as mulheres bebem águas ardentes em nome dos filhos. Meio esculhambado às vezes esse fado, negro negro do Tejo em ressaca de caporroto, de santos (os velhos!) com notas precisamente exaltantes como as dos hinos que prometiam futuros radiosos à eternidade - em que o Fado não acredita, que usa quando precisa. Vivo também. Ah bem vivo! Um fado com andaimes e cafés, trânsitos inesperados e silêncio fatal. E não se canta só para chorar! Oh quantos campeões declamam na rua, de camisa interior com tatuagem, suas façanhas de marinheiros, faca na mão sem as mulheres deles ouvirem! E as belas estrangeiras, não conhecendo a língua portuguesa, sorriem com discrição perante o castiço abagaçado, já em estado de decomposição democrática (para todos). Elas alojam-se em quartos pequenos de gesso, pladur e tacos disfarçados, barros antigos que desconhecem formam rumor lá dentro, quase mudos). Quando saem à rua, porém, parecem jovens donzelas acabadas de retoucar no palácio para deslumbrarem os machos extasiados e modernos onde cavalgam antigos e façanhudos animais de estimação ('digamos assim', na pronúncia lisboeta com o lábio ligeiramente retorcido à esquerda do cigarro e de alguma vírgula promissora).
Como escreveu, muitas décadas atrás, Ernesto Lara Filho, o cronista único, saudoso, mais alegre e mais bem disposto que já conheci: "o meu bigode angolano refulge" (falava das mulheres que via em Lisboa). Nunca usei bigode, mas continua a refulgir quando é preciso. Como a eternidade.
E eu lembro-me, talvez, de ter nascido. Momento raro. Possivelmente nasci entre andaimes, no caminho estreito a que chamei, séculos antes, adarve, depois picada, e a que chamo hoje apenas a rua do cordeiro.
Mas o que é puseste no café hoje? Pópilas!... Não me calo!
30/06/2026
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28/06/2026
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21/06/2026
20/06/2026
19/06/2026
18/06/2026
Um país não precisa de existir,
Que fazemos nós, Lisboa, os dois aqui na terra em que
nascemos e eu nasci” perguntava Alexandre O’Neill, de ombro na ombreira, a
olhar o imperador Maximiliano do México que está na estátua do Rossio a fingir
que é Dom Pedro IV de Portugal (...) Verdade ou mentira, ainda se está para
saber por que razão é que o escultor francês encarregado de figurar o nosso
rei em bronze de primeiríssima não esteve com mais aquelas e despachou para
Portugal um Maximiliano qualquer que tinha lá para um canto do atelier (...)
Dom Pedro? Dom Maximiliano? Que se lixe, seja o Dom Pedro, por que não? Assim
como assim, o país fica na mesma e o Rossio ainda ganha mais um caso para
entreter.
(sobre a estátua-boato Pedro-Maximiliano leia-se aqui)
E, porém, é um facto, há nações, que se foram formando e se vão mudando constantemente, comunidades de pessoas que, desde que deram por si (no significado cognitivo de *[g]noscere), foram formando e reformando as suas personalidades naquele continuum que é o diálogo dos que estão presentes em, por, e segundo pontos de referência reconhecíveis naquela comunidade, por mínimos, quanto mais mínimos mais democrática a simulação do país.
Isto é muito intelectual, colhe entre, mas é verdade, vos asseguro que a vivo. Como, no entanto, respiramos. Em todo o mundo respiramos. É engraçado, com sua graça muito própria, com sua elegância de garça e ofegância de desgraça. Mas, de cada vez, o ar é único ali, com batuques e dikanzas ou guitarras e violas, ali-aqui-agora, na senhora da Muxima leva-me então a Santana, se dizes que sou feiticeiro, na voz de Amália Rodrigues, o coração independente, que, juro, não acompanho mais.
Pois, basta que simules tens um país - e, no entanto, respiras. É o pecado nativo.
16/06/2026
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Já o zarolho escrevia
















































