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Átomos estéticos são também cognitivos

  “Quando vemos algo além de nossas expectativas, pedaços locais de tecido cerebral geram pequenos ‘átomos’ de afeto positivo. A combinação ...

12/07/2026

Alves Redol, Gaibéus

 (clique sobre a foto para ver inteira)


"O canavial, ali perto, falou à noite. E a noite não lhe respondeu. Só as águas do Tejo contavam histórias estranhas de dramas seus.

Vinha aí a maré alta. Ele desconhecia ainda que a vida dos homens é um rio com marés, um rio com fluxos e refluxos que um dia o havia de trazer para a luz. E as águas não se aquietariam nunca, porque então não seriam de rio, mas de charco. A vida nunca é charco. Rio aparentemente igual e sempre diferente."


03/07/2026

Mas o que é que elas sabiam?



Olhavam de onde? Para quem? Porque fica vazio o ângulo central?

(Tavira, Algarve, Portugal: igreja de Santa Maria do Castelo)


 

01/07/2026

Numa rua da cidade



vejo a minha cabeça: o lixo da manhã (de preferência arrumado ao canto esquerdo, à espera de limpeza noturna), as moradas (o tanto que sobre elas há para dizer!), a nobreza (a dos que aprendem a conhecer e, nessa medida, são filhos de algo, ou seja, do que neles se acrescenta por aprenderem a conhecer), a diplomacia (de preferência cultural), o sagrado (entre as árvores ao fundo e a biblioteca diplomática da nobreza), as interações pessoais (em esplanada no Verão), uma rua ensolarada ao meio para facilitar o mapa, o trânsito que foi mais o que vai passar a seguir (e que nos convém deixar em aberto, imprevisível), um polícia pelo menos (não convém fotografar o nosso polícia mental), a constante reformulação, renovação, algumas descontinuidades, os andaimes necessários às reedificações e múltiplas saídas possíveis, incluindo as que não consegui meter em perspetiva. Uma rua longa a descer para outra subida, mais lenta e gradual.

Esta é a rua de Santos-o-Velho, pouco acima da igreja, vista do passeio frente à embaixada de França, antigo palácio do Marquês de Abrantes (o primeiro foi agraciado com esse título em 1708, por D. João V, que transformava o ouro do Brasil em mármores magnificentes encomendados a artistas de excelência e edifícios sumptuosos, grandes, majestosos, desenhados por arquitetos de exceção). Uma rua onde moravam muitas pessoas pobres, em casas pequeninas, onde por vezes se ouvia o fado (pouco acima, na rua Vicente Borga, nasceria com o século XIX a famosa Severa, na taberna da mãe). O terremoto, máquina de limpeza bruta e radical, varreu a quinta dos marqueses de Abrantes, mas o palácio não. Frente ao palácio abriram-se ruas e subiram por onde antes havia muitas árvores e corriam águas pela chuva. Os operários, os migrantes internos que vinham para a beira-rio, varinas e pescadores, instalaram-se ali, junto com alguns homens ricos e, ou, nobres, esses em casas um pouco mais espaçosas. As monjas também. Os santos e os anjos, as mulheres de virtude e com ela discreta, mulheres belas tisnadas pelo Tejo, alguns e algumas pessoas de pele mais escura ainda fugindo ao poço dos negros. 

De certo modo, a nossa cabeça é um fado. Mixuruca, sim, enquanto prepara o grito. Fado-argamassa improvisado por vozes múltiplas na taverna onde são todos muito valentes e as mulheres bebem águas ardentes em nome dos filhos. Meio esculhambado às vezes esse fado, negro negro do Tejo em ressaca de caporroto, de santos (os velhos!) com notas precisamente exaltantes como as dos hinos que prometiam futuros radiosos à eternidade - em que o Fado não acredita, que usa quando precisa. Vivo também. Ah bem vivo! Um fado com andaimes e cafés, trânsitos inesperados e silêncio fatal. E não se canta só para chorar! Oh quantos campeões declamam na rua, de camisa interior com tatuagem, suas façanhas de marinheiros, faca na mão sem as mulheres deles ouvirem! E as belas estrangeiras, não conhecendo a língua portuguesa, sorriem com discrição perante o castiço abagaçado, já em estado de decomposição democrática (para todos). Elas alojam-se em quartos pequenos de gesso, pladur e tacos disfarçados, barros antigos que desconhecem formam rumor lá dentro, quase mudos). Quando saem à rua, porém, parecem jovens donzelas acabadas de retoucar no palácio para deslumbrarem os machos extasiados e modernos onde cavalgam antigos e façanhudos animais de estimação ('digamos assim', na pronúncia lisboeta com o lábio ligeiramente retorcido à esquerda do cigarro e de alguma vírgula promissora). 

Como  escreveu, muitas décadas atrás, Ernesto Lara Filho, o cronista único, saudoso, mais alegre e mais bem disposto que já conheci: "o meu bigode angolano refulge" (falava das mulheres que via em Lisboa). Nunca usei bigode, mas continua a refulgir quando é preciso. Como a eternidade. 

E eu lembro-me, talvez, de ter nascido. Momento raro. Possivelmente nasci entre andaimes, no caminho estreito a que chamei, séculos antes, adarve, depois picada, e a que chamo hoje apenas a rua do cordeiro. 

Mas o que é puseste no café hoje? Pópilas!... Não me calo!



27/06/2026

Acolher:


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(Donis de Frol Guilhade, revista Entre, 2010 - ISSN 1647-6697)




 

18/06/2026

Um país não precisa de existir,

basta fingir que existe. A descoberta foi se erigindo, mas é sobretudo romântica. Simula-se um herói, diz-se que todos nele moramos, ignoram-se os pássaros, as palmeiras e os pinheiros e mais alguns 'p', se não der jeito, se der diz-se que são como só ali, os pássaros cantam numa língua só percebida por nós, as palmeiras batem palmas às simulações dos nossos dedos e os pinheiros resinam perfumes raros para as nuvens inexistentes. O resto é ecologia. Simula-se uma nação, junta-se a história toda como se fosse uma pessoa, com identidade genética, remota ou não conforme dê jeito, serve-se pronto: o país. Afinal, nem sequer é paisagem, só mesmo simulação. Em nome dela, mata-se, que o poder pode valer a pena. Todos acondicionados como aquele ar dos aparelhos frios que se usam no calor único de cada uma das pátrias imaginadas! A foto é da Praça D. Pedro IV, Rossio, porque estava a ler Lisboa: roteiro de bordo escrito pelo português Cardoso Pires (ainda por cima José - de nome próprio mas não exclusivo):


Que fazemos nós, Lisboa, os dois aqui na terra em que nascemos e eu nasci” perguntava Alexandre O’Neill, de ombro na ombreira, a olhar o imperador Maximiliano do México que está na estátua do Rossio a fingir que é Dom Pedro IV de Portugal (...) Verdade ou mentira, ainda se está para saber por que razão é que o escultor francês encarregado de figurar o nosso rei em bronze de primeiríssima não esteve com mais aquelas e despachou para Portugal um Maximiliano qualquer que tinha lá para um canto do atelier (...) Dom Pedro? Dom Maximiliano? Que se lixe, seja o Dom Pedro, por que não? Assim como assim, o país fica na mesma e o Rossio ainda ganha mais um caso para entreter.

(sobre a estátua-boato Pedro-Maximiliano leia-se aqui)

E, porém, é um facto, há nações, que se foram formando e se vão mudando constantemente, comunidades de pessoas que, desde que deram por si (no significado cognitivo de *[g]noscere), foram formando e reformando as suas personalidades naquele continuum que é o diálogo dos que estão presentes em, por, e segundo pontos de referência reconhecíveis naquela comunidade, por mínimos, quanto mais mínimos mais democrática a simulação do país.

Isto é muito intelectual, colhe entre, mas é verdade, vos asseguro que a vivo. Como, no entanto, respiramos. Em todo o mundo respiramos. É engraçado, com sua graça muito própria, com sua elegância de garça e ofegância de desgraça. Mas, de cada vez, o ar é único ali, com batuques e dikanzas ou guitarras e violas, ali-aqui-agora, na senhora da Muxima leva-me então a Santana, se dizes que sou feiticeiro, na voz de Amália Rodrigues, o coração independente, que, juro, não acompanho mais. 

Pois, basta que simules tens um país - e, no entanto, respiras. É o pecado nativo.



 

15/06/2026

Devem ter sido

 


~ felizes para sempre ~



Liliputianas - ...

 


Onde os cardumes das Sirenas regressam as escamas
deslizam incógnitas, gémeas rainhas,
...

(Donis de Frol Guilhade, "Do inédito Os lírios de Liliput e o rio dos sorrisos [vinte & 2 arcanos de Swift], 2011")

10/06/2026

Já o zarolho escrevia


para suas redes sociais:


Trocar o ser do monte sem sentido,
pelo que num juízo humano estava!
Olhai que doce engano:
tirar comum proveito de meu dano!


 

09/06/2026

Tino reverso



("No verso do dizer encontrarás teu tino,

Ou teu destino em seu reverso...
[...]
O verás tu só.
[...]
To assentimento adense e o inverso adeja."

- Donis de Frol Guilhade, Uroboros, 1990)



28/05/2026

No vale que nos abrigou

a brisa fresca regressa
com sua felicidade esquecida
como um plano caído do bolso
ao descer do trem