Há uns dias (antes das eleições) denunciei aqui a manipulação de um orgão do estado, o único jornal nacional, pelo MPLA. Não foram só o tempo e o espaço ocupados por cada parte, mas a manipulação das notícias relativas à oposição, ao governo e ao MPLA. Mais ainda: os apelos à participação, contra a abstenção, na rádio sobretudo, eram transformados em apelos ao voto no MPLA (frase do tipo desta vendedora de um mercado de Benguela - pelo menos foi apresentada como tal: "agora então, que estamos com as escolas para os nossos filhos, hospitais novos, todos os dias vemos melhorias, temos água, temos luz, obras por todo o lado, eu quero que os meus filhos estudem, e possam tratar-se quando estão doentes, então agora não vamos votar, temos todos que votar e o voto é secreto, vota mesmo no partido do teu coração").
O director do Jornal de Angola, que tem melhorado o jornal em vários aspectos, tentou convencer-nos de que a linha que seguiam era "profissional, isenta e imparcial". Ele pode estar condicionado a fazê-lo e por isso não pode confessar o que faz. Mas também mentir assim é descaramento que o próprio jornal desmente no dia-a-dia. Foi o caso, aliás.
No mesmo jornal, como se lê na «angonotícias» na internet, no dia 10 de Setembro, dava-se notícia sobre o relatório da missão da UE, mas omitindo o parágrafo relativo às críticas aos media estatais onde se dizia: "a desigualdade na distribuição do tempo e espaço dedicados às actividades de campanha, assim como a difusão de programas e notícias sobre projectos de desenvolvimento e inaugurações levadas a cabo pelo Governo, deixou os restantes partidos concorrentes em situação de clara desvantagem".
Se a oposição fosse competente, há muito que teria entregue, nas instâncias apropriadas, uma denúncia completa e fundamentada, mesmo antes do dia das eleições - incluindo recortes de jornais e gravações de passagens na rádio. Note-se que a imprensa estatal é praticamente a única a chegar a todo o lado em Angola. Os governos abusam quando as oposições se deixam paternalizar, ficando na dependência deles há espera de algumas benesses. Na verdade, o povo também não vai votar numa oposição que não se consegue opor em condições a nada, que se deixou acomodar até à ingenuidade, e essa terá sido a melhor razão para a maioria das pessoas dar o seu voto "ao ladrão, esse pelo menos já nos rouba há muito tempo, já não vai tirar tanto" - como ouvi dizer uma popular a outra na rua.
diário fragmentado e conVentual, exposto por imagens. Clique nelas para ver em tamanho original.
Publicação em destaque
Átomos estéticos são também cognitivos
“Quando vemos algo além de nossas expectativas, pedaços locais de tecido cerebral geram pequenos ‘átomos’ de afeto positivo. A combinação ...