canção do pelicano - a camões

Com pés de barro e braços de cera, 
Com a chave do óvulo nas margens do Nilo, 
Com pés de enxofre e braços de sal, 
Com sete puras incisões e a luz em sangue

Derramando; com as entranhas em fogo 
E a lagoa reclinada a ocidente, 
Com a leve aragem que busca a tua mão sulina 
E agita levemente as águas como quem chama por ti;

Caminharei, de olhos vendados ainda, 
À sombra da estrela flamejante, nas asas cor de rosa 
Do entardecer, no serpentino refluxo 

De mercúrio. Palavra perdida no mapa astral, 
Com os braços cruzados e as pernas recolhidas 
Como um deus numa semente: caminharei.

Comentários

  1. O ovo inicial era Lupária, a terra das lobas,
    na selvagem ternura com fanais rotos
    e o monte bravio das aguadeiras
    que chegavam desde o vale do Pico Sacro
    com cheiro a manancial.
    Lupária, a terra das saudades antigas,
    receptora espermática do logos,
    a terra dos relevos torna sol,
    a geografia da estirpe longa,
    da nossa estirpe de adúlteras,
    de mulheres livres,
    da nossa estirpe que sempre gorentou
    as cerejas primeiras,
    da nossa estirpe que paria varões
    e desejava filhas por simples afã de viver;
    da nossa raça de esperantes vivas;
    a nossa raça de heranças femíneas
    e olhos verdes com poder de seiva,
    de olhos bravios com brilho de faca doce;
    nós as filhas da forneira,
    a cozer o pão de milho nas manhãs de inverno,
    a sobreviver sem fome nos lábios feitos carne
    e verso velho;
    as raparigas das neveiras em Meixãofrio
    a sentir arder o lume nas entranhas
    dos dedos gelados;
    as filhas místicas dos desejos,
    a santa, Teresa, a santa;
    as longas sombras de Ramona,
    a que voltou sem homem e com filhos,
    a linha de luz de Cármen, a dos santos,
    os beijos de Antónia, generosos de carne,
    o longo percurso de Dolores.
    Nós, as parideiras, as mães de mundo longo,
    as filhas para o mundo,
    as galaicas,
    as descendentes da rainha,
    da grande Lupa,
    a decifradora dos sonhos,
    a senhora dos astros.


    CAMINHA SEMPRE NUMA SEMENTE, AO VENTO, VOA SEMPRE...
    UM ABRAÇO

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