05/09/2009

batchi o que a áfrica não disse

Uma surpresa interessante o livro de estreia de Batchi, "pseudónimo literário de Basílio Tchindombe" como se diz na badana. O livro recebeu o prémio literário António Jacinto em 2008 e foi publicado pelo INALD com apoio do BPC. O autor nasceu no Huambo em 1979, mas vive desde um ano e meio no Lubango, sendo professor em Caconda. O título da obra é sugestivo: O que a África não disse... Em primeiro lugar estamos perante um narrador instigante, cuja obra deixa o leitor interessado do início ao fim. Para além disso vê-se que o autor domina bem, quer os aspetos históricos e antropológicos, quer as culturas em jogo (banto angolana e cristã europeia), quer as temáticas teológicas e filosóficas em que naturalmente envolve as personagens. Domina, ainda, a arte dos diálogos, que é a mais difícil numa narrativa. Efetivamente os diálogos nos parecem naturais, apesar do português antiquado (apropriado ao tempo da narração) e de umas poucas falhas nesse mesmo português antigo. Há raros momentos de inverosimilhança, no entanto ultrapassados e envolvidos por uma fina ironia. A par do português antigo e do português coloquial de hoje muitas falas são apresentadas em umbundo, com a respetiva tradução em português, comodamente, logo a seguir às frases, entre parêntesis, no corpo do texto. Tchindombe mostra ainda uma grande profundidade de análise, apesar da leitura redutora da homossexualidade, que no entanto ganha graça no contexto, e apesar da facilidade da leitura poder levar o incauto a pensar que aquilo é tudo fácil, portátil e banal. Não é nada disso. Habilmente o narrador guia a trama de maneira a que ela entrelace o cristianismo e a cultura banto sem que nenhum dos dois perca a sua verdade, mas denunciando o que havia em cada um deles de negativo (a intolerância e o dogmatismo do cristianismo europeu daqueles tempos iniciais da colonização de Benguela; a violência autoritária do sobado - que se converte no fim em sabedoria amorosa e cristã). Tudo retratado com seriedade mas sem o peso trágico dos grandes dramas da tradição clássica europeia, também sem a pesada metralha da literatura de combate, numa linguagem corrida e agradável ao ouvido, contando as coisas diretamente mas não secamente nem agressivamente. Outra originalidade: apesar de tudo a narrativa angolana está muito ancorada ainda em espaços urbanos, particularmente em Luanda. Esta centra-se no interior, com a chegada dos dois primeiros padres a Caconda, no tempo dos jagas. Em certos momentos parece que estamos a ver uma banda desenhada e, no entanto, sabiamente o autor lhe entrelaça uma trama filosófica geralmente ausente das bandas desenhadas e mesmo de muitas narrativas urbanas. Participa dessa riqueza reflexiva o retrato psicológico das personagens principais, que é também desenvolvido sem tornar a leitura penosa e está extremamente bem feito. A intriga é complexa, de uma inesperada solução que se vai no entanto insinuando em nós com o autor a manejar bem a sugestão de suspense. Enfim, com as fragilidades próprias de uma primeira obra, mas na verdade de pormenor e insignificantes, o que mais me importa agora sublinhar é que temos aqui um bom narrador e uma narrativa, como disse, instigante. Para lê-la é preciso despirmo-nos de simplismos, primarismos e contorcionismos. Com a sua audácia, o autor nos obriga também a sermos francos e com a sua argúcia nos obriga a uma leitura subtil. Está de parabéns, bem como o júri e o INALD.

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