
diário fragmentado e conVentual, exposto por imagens. Clique nelas para ver em tamanho original.
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Átomos estéticos são também cognitivos
“Quando vemos algo além de nossas expectativas, pedaços locais de tecido cerebral geram pequenos ‘átomos’ de afeto positivo. A combinação ...
11/06/2008
tipografia experimental

08/06/2008
o fermento
Só, depois da chuva, no silêncio espesso
— Tardias gotas sobre o chão,
Esguias e pássaros coados —
Rescalda a luz dos olhos sobre as casas.
Regresso incógnito e banido
No trágico teatro da coragem
— Lá,
Onde um canto imoral e sem grandeza
Cobre o asfalto indiferente e escasso,
A esbatida cal dos muros baixos,
Maleáveis,
Ignorando que mundo continua
No desbordo curvo das ruas, na viúva
Praia
A fermentar.
jameson benguelense
comércio benguelense 1
futebol e electricidade
07/06/2008
rené daumal a guerra santa
miga banto
Deliciado nestas terras a comer o meu bom funge de galinha, carne seca, ou peixe seco, fui surpreendido por Ladislau Batalha, judeu errante e assumido, socialista, anarquista, ecologista sem o saber como o são os autênticos, que deambulou por estas costas negras uns quatro anos à procura de fortuna após uma falência estúpida em Lisboa. Escreveu umas cartas a um amigo curioso sobre Costumes Angolenses, que se tornaram muito proveitosas ao povo e às escolas. Fico surpreendido porque também ele comia muqueca – de peixe, claro. Sei que não é a brasileira mas a nossa, daqui, onde a banana frita e a batata doce criam no estômago a crosta conveniente às derrotas do vinho tinto carrascão, comprovado que está que o peixe não puxa carroças como se diz em Portugal. Então e não é que o avô Ladislau vem de Lisboa ao mato angolano para encontrar a muqueca feita com peixe do rio e, pasme-se, pão amassado para acompanhar?! Quando era miúdo pensei que a minha avó tinha trazido isso da sua Beira serrana e altiva com seus vinte e poucos anos; já adulto e disperso na lusofonia atlântica, achei que afinal talvez algum ratinho tenha levado a receita do Alentejo para as serranias pobres de pinhais e barrocas deserdadas por Deus e até mesmo pelo Diabo. Agora apanho o avô Ladislau e, com aquela sua prosápia de judeu sabido, ele ensina-me que também comiam disso aqui há cerca de cem anos, pouco mais. Essa mistura de pão velho e água nova que se chama de miga, palavra saborosa e esmigalhada pelo saboreio entre dentes e papilas gustativas.
Uma vez que é função dos intelectuais encontrar a voz certa para o paladar mais agradável, eis-me regressado do meu Kapiandalo natal à biblioteca municipal de Benguela, onde espreito as etimologias de Fr. Francisco de S. Luiz, muito da minha predilecção por inusitadas e ainda assim prováveis. Era para ele a miga uma espécie de sopa, substantiva, que vinha de “migar, partir em pequenos bocados, e misturar para fazer sopa.” Ele tira a miga directamente do grego (“pouco usado”) migw, misturar e dos seus parentes miga (misturadamente) e migaV (mistura). De modo que, em homenagem aos nacionalistas gregos de Angola de sobrenome Dáskalos e aos judeus errantes que por aqui se misturaram, penso fazer este sábado nada menos do que uma boa muqueca de migas e servir assim a lusofonia inteira. Sou ambicioso, sim. Quero bom jindungo, variante mais colorida da chamada malagueta, aliás, quero aquele esticadinho que pica mais e não serve para decoração, misturado com uísqui e azeite doce a cantar desde 19 e troca o passo. Muitos passos para trocar, aliás, na longa sabática de hoje. Ou sabatina? Hi!...
