Que fazemos nós, Lisboa, os dois aqui na terra em que
nascemos e eu nasci” perguntava Alexandre O’Neill, de ombro na ombreira, a
olhar o imperador Maximiliano do México que está na estátua do Rossio a fingir
que é Dom Pedro IV de Portugal (...) Verdade ou mentira, ainda se está para
saber por que razão é que o escultor francês encarregado de figurar o nosso
rei em bronze de primeiríssima não esteve com mais aquelas e despachou para
Portugal um Maximiliano qualquer que tinha lá para um canto do atelier (...)
Dom Pedro? Dom Maximiliano? Que se lixe, seja o Dom Pedro, por que não? Assim
como assim, o país fica na mesma e o Rossio ainda ganha mais um caso para
entreter.
(sobre a estátua-boato Pedro-Maximiliano leia-se aqui)
E, porém, é um facto, há nações, que se foram formando e se vão mudando constantemente, comunidades de pessoas que, desde que deram por si (no significado cognitivo de *[g]noscere), foram formando e reformando as suas personalidades naquele continuum que é o diálogo dos que estão presentes em, por, e segundo pontos de referência reconhecíveis naquela comunidade, por mínimos, quanto mais mínimos mais democrática a simulação do país.
Isto é muito intelectual, colhe entre, mas é verdade, vos asseguro que a vivo. Como, no entanto, respiramos. Em todo o mundo respiramos. É engraçado, com sua graça muito própria, com sua elegância de garça e ofegância de desgraça. Mas, de cada vez, o ar é único ali, com batuques e dikanzas ou guitarras e violas, ali-aqui-agora, na senhora da Muxima leva-me então a Santana, se dizes que sou feiticeiro, na voz de Amália Rodrigues, o coração independente, que, juro, não acompanho mais.
Pois, basta que simules tens um país - e, no entanto, respiras. É o pecado nativo.
