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Átomos estéticos são também cognitivos

  “Quando vemos algo além de nossas expectativas, pedaços locais de tecido cerebral geram pequenos ‘átomos’ de afeto positivo. A combinação ...

18/06/2026

Um país não precisa de existir,

basta fingir que existe. A descoberta foi se erigindo, mas é sobretudo romântica. Simula-se um herói, diz-se que todos nele moramos, ignoram-se os pássaros, as palmeiras e os pinheiros e mais alguns 'p', se não der jeito, se der diz-se que são como só ali, os pássaros cantam numa língua só percebida por nós, as palmeiras batem palmas às simulações dos nossos dedos e os pinheiros resinam perfumes raros para as nuvens inexistentes. O resto é ecologia. Simula-se uma nação, junta-se a história toda como se fosse uma pessoa, com identidade genética, remota ou não conforme dê jeito, serve-se pronto: o país. Afinal, nem sequer é paisagem, só mesmo simulação. Em nome dela, mata-se, que o poder pode valer a pena. Todos acondicionados como aquele ar dos aparelhos frios que se usam no calor único de cada uma das pátrias imaginadas! A foto é da Praça D. Pedro IV, Rossio, porque estava a ler Lisboa: roteiro de bordo escrito pelo português Cardoso Pires (ainda por cima José - de nome próprio mas não exclusivo):


Que fazemos nós, Lisboa, os dois aqui na terra em que nascemos e eu nasci” perguntava Alexandre O’Neill, de ombro na ombreira, a olhar o imperador Maximiliano do México que está na estátua do Rossio a fingir que é Dom Pedro IV de Portugal (...) Verdade ou mentira, ainda se está para saber por que razão é que o escultor francês encarregado de figurar o nosso rei em bronze de primeiríssima não esteve com mais aquelas e despachou para Portugal um Maximiliano qualquer que tinha lá para um canto do atelier (...) Dom Pedro? Dom Maximiliano? Que se lixe, seja o Dom Pedro, por que não? Assim como assim, o país fica na mesma e o Rossio ainda ganha mais um caso para entreter.

(sobre a estátua-boato Pedro-Maximiliano leia-se aqui)

E, porém, é um facto, há nações, que se foram formando e se vão mudando constantemente, comunidades de pessoas que, desde que deram por si (no significado cognitivo de *[g]noscere), foram formando e reformando as suas personalidades naquele continuum que é o diálogo dos que estão presentes em, por, e segundo pontos de referência reconhecíveis naquela comunidade, por mínimos, quanto mais mínimos mais democrática a simulação do país.

Isto é muito intelectual, colhe entre, mas é verdade, vos asseguro que a vivo. Como, no entanto, respiramos. Em todo o mundo respiramos. É engraçado, com sua graça muito própria, com sua elegância de garça e ofegância de desgraça. Mas, de cada vez, o ar é único ali, com batuques e dikanzas ou guitarras e violas, ali-aqui-agora, na senhora da Muxima leva-me então a Santana, se dizes que sou feiticeiro, na voz de Amália Rodrigues, o coração independente, que, juro, não acompanho mais. 

Pois, basta que simules tens um país - e, no entanto, respiras. É o pecado nativo.



 

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