É uma velha muito velha, uma velha de muitos anos.
Caminha devagar. As suas pernas são dois troncos cheios de varizes, descendo para as sandálias de borracha, que protegem os pés das pedras da calçada. Atira a perna esquerda para fora,talvez porque não sofre tanto quando o corpo grandalhão está assim, como aqueles barcos na praia, que depois da pescaria, cansados de navegar, sossegam na areia, de lado. Usa óculos; mas estes são velhos também, perderam as hastes e estão atados à cabeça por um elástico azul.
Passa sempre ao fim da tarde, quando o sol fenece na cidade e vai iluminar outras ruas, outras casas e outras gentes. Com um cuidado extremo, pára em cada cruzamento, espera o sinal verde do semáforo, avança depois até ao cruzamento seguinte.
No bairro onde vive desde miúda, todos a conhecem, todos a saúdam, todos lhe falam, mas ela não responde a ninguém. Não porque seja mal educada, porque esteja mal humorada, ou por outra razão deste género — mas porque gosta só de sorrir a toda a gente, a agradecer.
Termina a sua viagem quando chega à Gelataria. Entra e espera em frente do balcão.
O empregado conhece o pedido de cor. Ainda ela vem na porta, já ele levanta a tampa da máquina congeladora. Com um gesto profissional, leva a colher ao fundo da massa e traz daí uma bola bem cheirosa, de baunilha e chocolate.
Paga com uma nota que trouxe enrolada na mão. Dá meia volta e sai: com as mesmas cautelas de há pouco, ou maiores talvez, porque não quer perder a carga deliciosa.
Esse cuidado que põe em cada percurso, esse vício que satisfaz diariamente, esse ignorar as dores que sente com certeza, tudo isso prova como é bom viver, respirar o ar do mundo e buscar alguma coisa.
Os netos esperam-na à porta de casa. O encontro é sempre uma algazarra pegada, e quem observa a cena de longe, se não fechou já os olhos ao amor e à ternura, fica mesmo sem saber se a velha de muitos anos (que atira a perna para fora, que usa óculos atados e manqueja com dores) é ou não a criança mais criança do grupo...(Inácio Rebelo de Andrade, O Sabor Doce das Nêsperas Amargas, Lx.ª, Contra-Regra, 1997)
Oh retrato de morte, oh noute amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga;
E vós, oh cortezãos da escuridade,
Phantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade,
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha escuridade,
Quero fartar meu coração de horrores.
a propósito de parnasianismo, romantismo e de um grande poeta brasileiro:
Fogo-fátuo
Cabelos brancos! dai-me, enfim, a calma
A esta tortura de homem e de artista:
Desdém pelo que encerra a minha palma,
E ambição pelo mais que não exista;
Esta febre, que o espírito me encalma
E logo me enregela; esta conquista
De idéias, ao nascer, morrendo na alma,
De mundos, ao raiar, murchando à vista:
Esta melancolia sem remédio,
Saudade sem razão, louca esperança
Ardendo em choros e findando em tédio;
Esta ansiedade absurda, esta corrida
Para fugir ao que o meu sonho alcança,
Para querer o que não há na vida!
Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!
Faze da tua realidade
uma obra de beleza
Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...
Depois de alguns dias de marasmo comunicativo decidi-me a ir ver a minha caixa de correio. Lá estava o livro do Adelino Torres, que aqui no 'blog' também apresentei. Uma Fresta no Tempo seguida de Ironias (Lisboa, Colibri, 2008).
Gosto mais da fresta no tempo, mais alcance, mais profundidade. Mas sei que as ironias são certeiras, directas e ficarão de certeza vários exemplos delas para amargarmos e nos consolarmos mais tarde, quando nos for acontecendo o mesmo a que o autor tem assistido e de que alguns de nós temos participado.
Um livro que vale a pena ler e onde a poesia, sem deixar de ser poesia, também não deixa de conversar connosco sobre a pobreza dos nossos dias e a riqueza das nossas (humanas) potencialidades. Nossa: dos seres racionais, críticos e de pontaria assestada sem piedade a toda a falsificação, do que for que seja.
Desde aqui, de Mombaka, da nossa Ombaka, da nossa mBaka, um grande e fraterno abraço.
O sistema solar, afinal, tem a forma de um ovo. Essa é a forma básica de organização. Por exemplo, numa manifestação, se não houver limites definidos, o meio tende sempre a ter mais gente que as pontas, pelo que ela tende a organizar-se em ovo. A Páscoa igualmente se organiza em torno de um ovo, apesar de ser o que é.
Henri Cartan, fundador do grupo Bourbaki, morreu com 104 anos a 13 de Agosto.
Conforme avança a campanha eleitoral o fornecimento de energia eléctrica diminui. Agora temos em média 6 horas por dia, quando antes esse era o período médio sem luz. Está claro, por ironia (pois é por não haver luz que está claro), que o partido no governo se continua a sentir seguro. É o que todos sabíamos. É de resto sintomático: a maior parte dos veículos das marchas do partido mostram a razoável colocação social dos seus mais fervorosos militantes. Entrar na campanha é pedir e justificar mais um cargo ou uma benesse. Avante camaradas, que o sol brilhará pra todos nós!